Aberta à comunidade, celebração centenária acontece neste sábado (1º), no CTG de Camapuã, reunindo gerações em torno da fé, da união familiar e de uma tradição que atravessa um século

Há tradições que resistem ao tempo. Outras se transformam em patrimônio afetivo de um povo. Em Camapuã, a Festa da Família Mantenense alcança, neste ano, um marco histórico: a 100ª edição. Mais do que um encontro familiar, a celebração representa um século de devoção ao Bom Jesus da Lapa, de união entre gerações e de preservação de uma história que ajudou a construir a identidade do município. Realizada no CTG – Centro de Tradições Gaúchas de Camapuã, a festa é aberta gratuitamente à comunidade e integra o Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul.
A origem da família Mantenense remonta às margens do Rio Mantena, na região que hoje pertence ao município de Ribas do Rio Pardo. Foi dali que diversos integrantes migraram para Camapuã, levando consigo não apenas o sobrenome pelo qual passaram a ser conhecidos, mas também uma promessa de fé que atravessaria gerações. Entre os descendentes estavam pioneiros que participaram diretamente da formação do município, como Alaor Gonçalves da Costa e Francisco Gonçalves Rodrigues, lembrados como importantes nomes da história local.
A importância da Festa da Família Mantenense ultrapassou as fronteiras de Camapuã e recebeu reconhecimento oficial do Estado. Em 2019, a celebração foi incluída no Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul por meio da Lei Estadual nº 5.406, consolidando o evento como patrimônio cultural e tradicional do município. O reconhecimento reforça a relevância de uma festa que, há um século, preserva a história, a fé e a união de gerações de uma das famílias mais tradicionais da região.

Segundo registros históricos reunidos pela professora Darcy Rodrigues Machado Borges, a tradição teve início por volta de 1926, inicialmente em Paranaíba, motivada por uma promessa feita pelos antepassados da família. O primeiro responsável pela celebração foi Manoel Felisberto da Costa Lima, que realizou a festa durante sete anos consecutivos. Após esse período, a responsabilidade passou a ser compartilhada entre as famílias Mantenenses, por meio de sorteio dos festeiros, modelo que permanece até os dias atuais. Curiosamente, apesar de Manoel ter organizado sete festas, esse período passou a ser contabilizado como apenas um ciclo, razão pela qual a celebração chega agora à sua 100ª edição, embora a tradição tenha ultrapassado um século de existência.
A essência da festa nunca mudou. O principal compromisso continua sendo o cumprimento da promessa em louvor ao Bom Jesus da Lapa. O momento mais aguardado é o terço da promessa, seguido da tradicional Mesa dos Anjos, quando sete crianças com menos de sete anos são servidas em um gesto de fé e gratidão. Depois da parte religiosa, a confraternização toma conta do ambiente com leilão, almoço comunitário, baile e muita música, sempre sustentados por doações feitas pelas famílias e por colaboradores da comunidade.
Neste ano, os festeiros são Natagil Alves Ferreira e Cosmira Simões Santos Ferreira, casal que assumiu a missão de conduzir a histórica edição centenária. Há cerca de dois meses eles coordenam uma grande mobilização envolvendo familiares, amigos e voluntários para preparar cada detalhe da festa. Desde a arrecadação de doações até a organização da estrutura, tudo é realizado de forma comunitária, preservando o espírito solidário que acompanha a celebração desde a sua origem.
“Eu me sinto muito feliz. Desde quando me entendo por gente ajudo nessa festa. Nunca tinha assumido como festeiro, mas sempre participei, ajudando cada família que organizava. Agora chegou a nossa vez, e é uma honra muito grande fazer parte dessa história”, afirma Natagil Alves Ferreira.

Segundo ele, um dos maiores orgulhos da festa é justamente seu caráter acolhedor. Não há cobrança de ingresso, e qualquer pessoa pode participar da programação. “É uma festa aberta. Quem chega é recebido como se fosse da família. A única coisa que a pessoa paga é a bebida. Nosso maior convite é para que todos participem do terço da promessa e vivam esse momento conosco. Depois ficam para almoçar, conversar e celebrar. Todo mundo é muito bem recebido.”
Além da importância religiosa, a Festa da Família Mantenense representa um verdadeiro reencontro de gerações. Hoje, os descendentes da família estão espalhados por diversas cidades e atuam nas mais diferentes profissões — médicos, professores, advogados, empresários, produtores rurais e servidores públicos. Uma vez por ano, porém, todos voltam suas atenções para Camapuã, reafirmando o compromisso assumido pelos antepassados de manter a família unida. Como resume Natagil, “o mais importante é reunir as pessoas. A gente se preocupa com a família, com a união. É isso que mantém essa tradição viva há tanto tempo.”

Neste sábado, a cidade volta a testemunhar mais um capítulo dessa história centenária. Em tempos de mudanças rápidas, a Festa da Família Mantenense permanece como um exemplo de que fé, memória e união ainda são capazes de atravessar gerações. Muito mais do que celebrar uma edição histórica, Camapuã celebra um legado construído por centenas de pessoas ao longo de um século — uma tradição que continua escrevendo sua história e acolhendo, de braços abertos, todos aqueles que desejam fazer parte dela.