Após buscar a mãe em Portugal para trazê-la de volta ao Brasil, Ana Lúcia passou a viver uma inversão de papéis marcada por cuidado, paciência e uma força feminina que nasce do amor

Em 2018, a vida de Ana Lucia mudou de forma inesperada. A notícia veio por telefone, diretamente da própria mãe, que morava na Europa. Durante uma conversa aparentemente comum, ela revelou que estava em tratamento para Alzheimer. A revelação trouxe surpresa, tristeza e muitas incertezas para a família:
“Foi uma grande surpresa para todos nós, porque minha mãe sempre foi uma pessoa muito ativa, professora, sempre cuidou muito da saúde e da alimentação. Eu senti um misto de sentimentos… tristeza e muito medo do que viria pela frente”, relembra Ana.

Naquele momento, além da preocupação com a doença, havia também a distância. A mãe vivia em Portugal com o esposo, longe da família no Brasil. Durante alguns anos, Ana acompanhou a situação à distância, até perceber que a condição da mãe exigia algo mais: presença. Em 2024, tomou uma decisão que mudaria completamente sua rotina — atravessou o oceano para buscá-la e trazê-la de volta para perto da família.
“Quando percebi que ela já não estava bem, entendi que precisava voltar para o Brasil. Em uma semana organizei tudo e fui buscá-la em Portugal. Sabia que ela precisava estar perto da família, com cuidados mais de perto e mais atenção”, conta. A viagem não foi apenas um deslocamento geográfico, mas o início de uma nova fase da vida de Ana, marcada pela dedicação diária.
Com o avanço da doença, Ana passou a viver algo profundamente simbólico: tornou-se, de certa forma, a mãe da própria mãe. A inversão de papéis trouxe desafios emocionais intensos, exigindo maturidade, firmeza e muito amor. “Essa foi uma das coisas mais difíceis de entender. Eu fui criada com o ensinamento de honrar pai e mãe, sempre estive disposta a cuidar deles. Mas quando precisei assumir uma postura de autoridade com a minha própria mãe, dizendo ‘não’, explicando que ela não podia sair sozinha, aquilo partia meu coração.”

Em meio a esse processo, Ana também precisou buscar apoio emocional para lidar com o peso da responsabilidade. Em Portugal, chegou a procurar ajuda psicológica para compreender melhor o momento que estava vivendo:
“O psicólogo me ajudou muito a entender que cuidar também significa colocar limites para proteger. Mesmo assim, não é fácil se ver no lugar de ser, de certa forma, a mãe da sua própria mãe. Ainda assim, encaro isso como uma forma de amor e de retribuição por tudo o que ela fez por mim.”
Hoje, além de cuidadora da mãe, Ana também continua exercendo seus papéis de esposa e mãe de dois filhos. Conciliar todas essas responsabilidades exige organização, equilíbrio e apoio da família. “Não é uma tarefa simples. Ela ainda está em um estágio moderado da doença, então muitos cuidados fazem parte da rotina. Alguns espaços da casa precisaram ser adaptados para dar mais segurança a ela. Mas graças a Deus tenho muito apoio. Meus filhos ajudam bastante e meu esposo sempre esteve ao meu lado.”

Apesar dos desafios, Ana diz que essa experiência tem sido uma profunda lição sobre amor, paciência e força feminina. “Eu sempre lembro de uma passagem da Bíblia que diz que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo suporta. Cuidar de alguém com Alzheimer só é possível pelo amor. A gente olha para uma pessoa tão inteligente, tão estudada, e às vezes se pergunta ‘por quê?’. Mas entendi que talvez nunca tenhamos essa resposta. O que podemos fazer é enfrentar com amor e sabedoria.”
Para outras mulheres que também vivem a missão de cuidar dos pais com doenças degenerativas, Ana deixa uma mensagem de acolhimento e esperança:
“Eu diria que elas nunca estão sozinhas. Cuidar de quem cuidou da gente é desafiador, mas também muito bonito. Se a nossa missão for ser mãe da nossa própria mãe, que possamos cumprir isso com muito amor, carinho e paciência, sempre buscando oferecer a melhor qualidade de vida possível para quem amamos.”
