Procedimento realizado na Santa Casa de Campo Grande utilizou pele humana como curativo biológico para proteger o corpo contra infecções e perda de líquidos

Uma cirurgia inédita realizada na Santa Casa de Campo Grande utilizou pele humana doada, enviada do Paraná, para tratar uma criança de 11 anos que sofreu queimaduras de terceiro grau em cerca de 60% do corpo.
Considerado um caso de extrema gravidade, o procedimento foi realizado na última sexta-feira (18), durou aproximadamente duas horas e envolveu 15 profissionais no centro cirúrgico.
De forma simplificada, a criança recebeu uma espécie de “macacão de pele”, utilizado para recobrir áreas como o tronco, os braços e as coxas.
Segundo a cirurgiã plástica Renata Ferro, que trabalha há 25 anos na Santa Casa, o tratamento convencional para queimaduras extensas consiste na retirada de pele saudável do próprio paciente para realização de enxertos.
No entanto, devido à extensão das queimaduras, a criança não possuía área suficiente de pele saudável para que o procedimento pudesse ser realizado dessa maneira.
“Então nós utilizamos uma estratégia temporária chamada enxerto alógeno. É uma pele doada de outra pessoa, vinda de Banco de Pele, que funciona como um curativo biológico. Essa pele não vai pegar definitivamente, ela será rejeitada em algumas semanas, mas ela cumpre um papel vital agora. Melhora a dor, melhora a perda de líquidos. Enquanto a criança se recupera para receber a pele definitiva dela”, explicou a médica.
Renata destacou que o tratamento deverá continuar por vários meses, mas ressaltou que a utilização da pele doada representa uma etapa fundamental na tentativa de preservar a vida do menino, que permanece internado no CTI (Centro de Terapia Intensiva).
As queimaduras de terceiro grau destroem todas as camadas da pele e, por isso, a região afetada não consegue se recuperar sozinha.
“Normalmente, o próprio paciente doa a pele para ele mesmo. Mas, neste caso, como a queimadura é extensa, mais de 60% da superfície, ele não tem área doadora suficiente. A solução foi fazer a cobertura com pele doada. Não é experimental, é padrão ouro do tratamento. Mas é a primeira vez que faz no Estado”, afirmou Henrique Dorsa, médico residente da cirurgia plástica.
O médico explicou que a pele exerce funções essenciais para o organismo, incluindo a proteção contra infecções, a redução da perda de líquidos e proteínas e a regulação da temperatura corporal.
“A gente conseguindo fazer a cobertura de pele temporária é o que pode fazer a diferença entre a vida e a morte. É o melhor tratamento possível. É um marco”, afirmou Henrique.
A médica residente Mabiane Antoniolli também participou do procedimento realizado na Santa Casa.
Pele veio do Paraná
A pele utilizada no tratamento foi transportada de avião a partir do BPH-HUEM (Banco de Pele Humana do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie), localizado em Curitiba (PR).
O envio contou com o apoio da Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso do Sul.
Criança sofreu queimaduras após incêndio
Conforme divulgado pelo Campo Grande News em 4 de agosto, o menino, de 11 anos, sofreu queimaduras em aproximadamente 85% do corpo após um incêndio envolvendo álcool.
Na ocasião, a mãe relatou à reportagem que o filho chegou consciente à UPA Santa Mônica e contou uma versão sobre o que teria acontecido.
“Ele entrou na UPA Santa Mônica acordado. Falou que o outro menino jogou álcool nele e tacou fogo. Falou para o pai dele por videochamada e para o próprio médico. Depois disso ele desmaiou”, contou a mãe à reportagem, no dia 6 de agosto.
O adolescente investigado apresentou uma versão diferente à Polícia Civil. Segundo o relato dele, os dois brincavam com álcool quando as chamas atingiram um galão de combustível.
Ainda conforme essa versão, a explosão teria lançado o líquido em chamas contra o menino.
O Campo Grande News informou que não conseguiu contato com a mãe do adolescente nesta terça-feira (22).
Fonte: Campo Grande News