Força produtiva que transcende o campo para impulsionar o desenvolvimento econômico e o futuro da formação técnica em toda a região de Camapuã
Por Flávio Dias – Navega MS
O tilintar firme dos saltos altos, nos corredores do curso de Direito e nos primeiros passos da carreira jurídica organizada gradualmente, deu lugar ao som rítmico das botinas que hoje desbravam o chão batido de um dos complexos de engorda mais eficientes da região. Olhar para as instalações robustas do Confinamento Boitel Morada do Boi Gordo, localizado a 17 km de Camapuã (MS), exige, antes de tudo, compreender a mente estratégica de sua idealizadora: a advogada Dra. Patrícia Castro. Distante do estereótipo tradicional do pecuarista de linhagem centenária, Patrícia desenhou seu espaço no agronegócio por meio de uma transição marcada por audácia, estudo rigoroso e uma inabalável capacidade de reinvenção comercial: Veja acima o vídeo da estrutura do confinamento.
Nesta reportagem você vai ler sobre:
- Empreendedorismo feminino: a trajetória de transição de carreira de uma mulher à frente de um negócio de capital intensivo.
- Gestão de precisão: o papel da nutrição estratégica e do balanceamento de dietas na eficiência produtiva.
- Produtividade e competitividade: como a gestão técnica (Confinatech) eleva a eficiência da terminação de bovinos.
- Desenvolvimento territorial: a potência econômica de Camapuã como Capital do Bezerro de Qualidade e a força do agronegócio regional.
- Educação empreendedora: a simbiose entre o confinamento e a formação de novos talentos pelo SENAR/MS.
- Sustentabilidade e bioeconomia: a integração de seringueiras para sombreamento e bem-estar animal no sistema produtivo.
- Gestão financeira: estratégias para mitigar crises de mercado e garantir margens reais ao pecuarista.
Diante da grandiosidade desse projeto e conduzido pelo olhar cirúrgico e pela sensibilidade analítica feminina, o empreendimento consolida-se não apenas como um pilar de alta relevância para a produção pecuária local, mas como um verdadeiro motor de desenvolvimento econômico, social e pedagógico para o município. O complexo tem despertado o interesse genuíno de uma nova geração de profissionais que enxergam o agronegócio como um campo promissor, servindo de referência inspiradora para jovens que desejam ingressar no setor. Esse impacto estratégico é amplamente reconhecido por entidades ligadas ao agro e à qualificação profissional, que destacam o papel fundamental do confinamento no fortalecimento da cadeia produtiva, na geração de empregos e na conexão direta com cursos e capacitações técnicas voltados para o campo.

Sua imersão no ecossistema empresarial do campo começou a se estruturar no início dos anos 2000. Entre 2001 e 2002, na região de Coxim, Patrícia atuava de forma intensa no comércio de sementes e insumos agropecuários.

O retorno a Camapuã, cidade reconhecida como a “Capital do Bezerro de Qualidade”, ocorreu anos depois, impulsionado pelo convite estratégico de um grupo empresarial do setor. Ao regressar, Patrícia não trazia apenas o diploma na bagagem, mas uma expertise de mais de 22 anos de experiência acumulada por sua família no segmento de consultoria e nutrição bovina.

Os primeiros anos foram marcados por testes severos de resiliência e visão de mercado. O desafio inicial concentrou-se na captação de bovinos junto aos produtores parceiros para dar a largada no projeto de engorda, convencendo o mercado local sobre as vantagens econômicas do sistema de hospedagem animal. Contudo, o obstáculo mais complexo surgiu com a severa crise de desvalorização da arroba que atingiu a pecuária nacional no início da mudança de governo. Muitos produtores haviam adquirido seus bezerros a preços historicamente elevados e viram as margens despencarem com a forte baixa no preço final do boi gordo.

Para proteger seus clientes e manter a atratividade do negócio, Patrícia precisou adotar decisões estratégicas de alta complexidade regulatória e comercial. A gestão implementou ferramentas que blindaram a operação, utilizando estratégias nutricionais inovadoras para otimizar o ganho de peso e garantir que, mesmo diante de um cenário de preços deprimidos, o produtor obtivesse margem líquida real ao retirar o gado do confinamento. O avanço tecnológico contínuo e a melhoria progressiva nos índices de desempenho zootécnico transformaram a propriedade. O que havia sido projetado como um centro de manejo rural rapidamente se converteu e se consolidou como uma eficiente fábrica de produção de proteína animal industrializada, pautada por métricas rígidas de governança e produtividade.

Muito além dos bois
A engrenagem operacional da Morada do Boi Gordo funciona com o rigor e a sincronia de uma indústria de ponta. Quando os animais chegam ao complexo transportados por carretas, a recepção segue um protocolo milimétrico capitaneado pelo gerente Marcelo Bernardino da Cunha.
“A carreta chega e, na mesma hora, os bois são descarregados e destinados à área de descanso. Após 48 horas, realizamos o protocolo completo: brinco de identificação, pesagem, classificação e o manejo sanitário com vermífugos e vacinas específicas”, detalha Marcelo.

A partir desse momento, a rotina ganha uma disciplina militar. De acordo com o gerente, todos os lotes recebem o chamado “rodeio diário” — uma vistoria minuciosa de monitoramento — e os tratos seguem horários rigorosos. “Mantemos rigorosamente o mesmo horário de trato todos os dias. O trabalho é árduo para manter todos os bebedouros limpos e dispensar um cuidado especial com os bois. Precisamos ter união e foco para entregar o melhor resultado para o cliente”, pontua Marcelo. O coração desse controle tecnológico é o sistema Confinatech, responsável por monitorar diariamente o consumo de matéria seca e avaliar o desempenho zootécnico em tempo real.

Na outra ponta da precisão produtiva está o zootecnista Bruno Chagas, responsável por desenhar a matriz nutricional e metabólica do confinamento. Bruno explica que a construção da dieta é dividida em fases estratégicas (adaptação, crescimento e terminação) e fundamenta-se no equilíbrio exato entre a fibra e o concentrado (grãos de cereais, farelos e o núcleo mineral com aditivos).
“Nos primeiros 14 a 21 dias, na fase de adaptação, o foco não é ganho de peso rápido, mas sim adaptar a flora ruminal do animal. A dieta de entrada tem mais fibra e menos amido. Se você errar aqui e acelerar o milho antes da hora, o animal desenvolve acidose, para de comer e perde desempenho”, alerta o zootecnista.
Conforme o rúmen se estabiliza, a densidade energética é ampliada gradualmente até a dieta de terminação, onde o amido predomina para garantir a deposição de gordura na carcaça. Para assegurar a eficiência alimentar e proteger a saúde do rebanho, são incorporados aditivos tecnológicos de ponta, como ionóforos (monensina) e antibióticos não absorvíveis (virginiamicina).

Outro pilar essencial defendido por Bruno é a “leitura de cocho”, definida por ele como o termômetro diário do negócio.
“É o manejo visual realizado logo cedo para avaliar a ração que sobrou do dia anterior. Na Morada do Boi Gordo, as leituras são realizadas mirando sobras de 3% para garantir que o gado desempenhe o máximo do seu potencial genético, sem flutuação de consumo. O boi ‘fala’ pelo cocho e pelo chão. Analisamos visualmente o conteúdo, consistência e coloração das fezes. Nossa meta é obter o escore 3, o indicador definitivo de que os animais estão desempenhando o ganho de carcaça esperado”, afirma Bruno.

Esse refino zootécnico ganha um aliado ecológico singular nas margens da BR-060: um bosque composto por 10 mil seringueiras que proporciona sombra natural ao gado. Bruno ressalta que o bem-estar animal está diretamente ligado ao bolso do investidor. Sob calor excessivo e radiação direta, o animal gasta energia vital para tentar se resfriar e reduz o consumo.
“A sombra natural das seringueiras cria um microclima único. A vegetação realiza a evapotranspiração, reduzindo a temperatura ambiente de forma muito mais eficiente que telas artificiais. Livres do cortisol (hormônio do estresse), os animais passam mais tempo deitados ruminando. Na prática, animais confinados com acesso a esse sombreamento apresentam um incremento no Ganho Médio Diário (GMD) de 100 g a 150 g por dia e melhora significativa no rendimento de carcaça. Eles transformam alimento em carne, não em suor”, revela o zootecnista.

Os resultados práticos dessa engrenagem de alta performance consolidam o Boitel como um acelerador de giro de capital para o pecuarista, otimizando o fluxo de caixa, elevando a taxa de desfrute e garantindo a entrega de um produto padrão exportação (“Europa” ou “China”).

Expocam: o eixo econômico e social do agronegócio em Camapuã
A história construída por Patrícia dentro do Boitel não é um caso isolado. O empreendimento faz parte de uma cadeia produtiva muito mais ampla, que sustenta e impulsiona a economia de Camapuã. Nesse contexto, a Exposição Agropecuária de Camapuã (Expocam) se consolida como a principal vitrine do agronegócio regional, reunindo produtores, investidores e técnicos em torno de um setor que movimenta milhões de reais e influencia diretamente o desenvolvimento do município.
Mais do que uma vitrine técnica, a Expocam tornou-se um ponto de convergência social. Durante os dias de feira, Camapuã vive uma verdadeira síntese da identidade sul-mato-grossense. Entre a culinária regional, shows, rodeios e as tradicionais provas de laço comprido, o evento resgata as raízes e fortalece os laços da comunidade. É a celebração de um povo que, através da força do agronegócio, sustenta não apenas a economia, mas o orgulho de pertencer à Capital do Bezerro de Qualidade.
Veja no vídeo abaixo como a pecuária se tornou um dos pilares do desenvolvimento econômico e social de Camapuã:
Para o presidente da Acricam, Paulo Valcanaia, o protagonismo de Camapuã — que mantém um rebanho próximo de 600 mil cabeças — é resultado de um trabalho construído ao longo de gerações, com foco em genética e qualidade. “Camapuã construiu uma reputação sólida. Hoje somos reconhecidos pela quantidade e pela qualidade dos bezerros. Durante a Expocam, a cidade se transforma em uma vitrine da pecuária nacional, onde milhares de animais são comercializados”, destaca Valcanaia.

A força desse mercado fica evidente nos números. Segundo o dirigente, a semana da exposição representa o ponto alto do calendário econômico local, com a comercialização de mais de 7 mil cabeças nos remates:
“Em 2025, ultrapassamos a marca de R$ 25 milhões em movimentação econômica, consolidando a maior edição da história do evento”, pontua. O alcance da feira já ultrapassa fronteiras estaduais, atraindo compradores de diversas regiões do Brasil e também do Paraguai.
Para Valcanaia, esse desempenho reforça a importância da mobilização da Acricam em torno da oficialização de Camapuã como Capital Nacional do Bezerro de Qualidade. “Cerca de 65% da nossa área produtiva é voltada à pecuária, tornando o setor o principal motor econômico do município”, explica. O presidente ressalta ainda que a continuidade desse crescimento depende da integração entre tecnologia, assistência técnica e políticas públicas:
“Iniciativas como a da Dra. Patrícia, com seu confinamento de alta performance, mostram que estamos no caminho certo. Unindo a tradição da nossa pecuária com a inovação técnica que empreendimentos como o dela trazem, Camapuã se mantém como referência para Mato Grosso do Sul”, conclui Valcanaia.

A força de mercado celebrada anualmente durante a Expocam encontra no cotidiano produtivo de Camapuã o seu complemento essencial. Se a feira atua como o palco que projeta a qualidade do rebanho camapuanense, o trabalho diário no campo é o que sustenta a viabilidade dessa pecuária competitiva ao longo do ano. É nesse cenário de busca por eficiência que o Boitel Morada do Boi Gordo, assim como outras empresas do setor, se destaca, transbordando o sucesso da produção para o desenvolvimento econômico e social de toda a região.

Formando a próxima geração do agro

O presidente do Sindicato Rural de Camapuã, Euler Ferreira Martins, aponta o confinamento como uma peça-chave para o salto tecnológico regional.
“O confinamento é muito importante porque permite que a gente veja na prática tudo aquilo que vem sendo desenvolvido dentro da pecuária moderna. É um ambiente onde produtores, estudantes e profissionais conseguem acompanhar de perto técnicas de manejo, nutrição, gestão e tecnologia. Para nós, do Sindicato Rural, isso ajuda a fortalecer a pecuária da nossa região, gera conhecimento, troca de experiências e mostra que sempre é possível produzir com mais eficiência e qualidade”, destaca Euler.

Euler ressalta ainda a conexão indissociável entre a tecnologia do Boitel e a fama do município. “Camapuã carrega o título de Capital Estadual do Bezerro de Qualidade. Esse título é resultado do trabalho de gerações de produtores que sempre investiram em genética e manejo. Iniciativas como o confinamento consolidam essa reputação, porque mostram que, além da tradição, o produtor camapuanense está atento às exigências do mercado. O Sindicato Rural acredita muito na aproximação entre quem está estudando e quem está produzindo. Ninguém faz nada sozinho. Quando trabalhamos juntos — Sindicato, SENAR, instituições e empresas —, quem ganha é toda a comunidade.”

Essa ponte com o futuro é coordenada no polo local por Sebastiana Oliveira, que atua há mais de 24 anos no Sindicato Rural de Camapuã. Ela relata que, no segundo semestre de 2025, o polo recebeu os Cursos Técnicos do SENAR, iniciando a primeira turma de Agronegócio com 20 matriculados, contando hoje com 10 alunos altamente focados.
“No dia 18 de abril deste ano (2026), realizamos uma visita técnica histórica ao Confinamento Morada do Boi Gordo. O Leandro, um dos responsáveis da parte técnica do empreendimento, nos recebeu com muita atenção e explicou na prática o funcionamento do dia a dia. Esse contato direto com o campo será o grande diferencial na formação técnica deles, agregando muito para o mercado local, onde o forte é o agro. Inclusive, já estamos expandindo o portfólio do polo com o curso Técnico em Segurança do Trabalho no Agro para o segundo semestre de 2026, preparando profissionais à altura do reconhecimento do nosso município”, pontua a coordenadora.

O reflexo mais nítido do sucesso dessa simbiose educacional está no depoimento de Mairon França, de 33 anos. Natural de Camapuã, filho e neto de produtores rurais, Mairon personifica a terceira geração que busca perpetuar a história da família no campo, mas com uma roupagem totalmente nova.
“Confesso que não tinha expectativa nenhuma no curso e ele está me surpreendendo pela qualidade do conhecimento. Desde muito jovem trabalho na lida, mas faltava o conhecimento para gerir, e o curso veio na hora certa. Estamos há três gerações na pecuária e só agora, com essa tecnologia vista no confinamento, fica viável e lucrativo engordar o gado dessa forma. Nós aprendemos mais vendo do que lendo, a prática fixa o conhecimento. Pretendo em breve erguer um confinamento na propriedade do meu pai. Meu sonho é me desenvolver para ajudar outros produtores com técnicas inovadoras e sustentáveis, tornando o agro cada vez mais verde”, projeta Mairon.

Ao final de cada ciclo produtivo, quando os lotes de animais deixam as baias rumo ao mercado com padrão de excelência internacional, os olhos se voltam novamente para a liderança firme que orquestra todo o mecanismo. Dra. Patrícia Castro edificou mais do que corredores de confinamento altamente produtivos; ela consolidou um legado de modernização que redefine o agronegócio de Camapuã. Para o futuro, os planos da empresária sustentam-se sobre a premissa da responsabilidade: expandir os volumes e produzir cada vez mais, porém mantendo o foco absoluto em um crescimento planejado, sustentável e rigorosamente gerido passo a passo.
Quando provocada a sintetizar os pilares que sustentam a curva exponencial de evolução do seu negócio, Patrícia é cirúrgica e direta, revelando a mentalidade que norteia sua governança corporativa: “Dedicação, coragem e, lógico, a experiência no que se está fazendo; essa receita não tem erro”.
O Confinamento Boitel Morada do Boi Gordo não é apenas uma estrutura de confinamento. É o resultado de uma trajetória empreendedora que demonstra como visão, coragem para investir e capacidade de gestão podem transformar oportunidades em desenvolvimento econômico, geração de renda e novas perspectivas para o campo.