Em uma época em que o rádio era o principal meio de comunicação da cidade, a radialista entrou diariamente nos lares camapuanenses, tornando-se companhia, conselheira e referência para gerações de mulheres

Na série especial “Mulheres que movem Camapuã”, que homenageia histórias femininas que deixaram marcas profundas na cidade, um nome ecoa com carinho na memória de muitas famílias: Norma Pereira. Em uma época em que o rádio era o principal meio de comunicação e companheiro constante nas casas, nas fazendas e nos comércios da cidade, sua voz se tornou presença diária na vida de milhares de pessoas. Para muitas mulheres, ela era mais do que uma radialista — era uma companhia, uma conselheira e uma amiga, alguém que conversava, orientava e criava laços através do rádio.
Ela mesma relembra que, no início, o caminho não foi simples. O rádio era um ambiente majoritariamente masculino, e conquistar espaço exigiu paciência e dedicação. “No começo eu tive algumas dificuldades, principalmente com as mulheres que estavam acostumadas a ouvir vozes masculinas. Demorei um pouco a entrar no coração delas”, conta. Com o tempo, porém, a realidade mudou. A radialista passou a ser reconhecida não apenas como apresentadora, mas como uma amiga presente no dia a dia das pessoas.

A força do rádio naquela época era impressionante. Em um período sem redes sociais e com pouca tecnologia, era por meio das ondas do rádio que chegavam notícias, mensagens e até recados familiares. Norma se tornou uma ponte entre as pessoas:
“Nós nos tornamos amigas de todas as horas, companheiras de troca de ideias, de receitas. Eu aceitava conselhos delas e também dava conselhos através do rádio”, relembra. Essa troca afetiva transformou o microfone em algo muito maior do que um instrumento de trabalho.
A voz de Norma chegava longe. Chegava às casas da cidade, mas também às fazendas, sítios, distritos e chácaras da região, onde muitas famílias mantinham o rádio sempre ligado. Era ali que os ouvintes ouviam notícias importantes, mensagens da comunidade e até comunicações delicadas:
“Às vezes eu precisava dar notícias que não eram boas, como notas de falecimento. Mesmo assim as pessoas agradeciam, porque precisavam saber o que estava acontecendo em Camapuã”, recorda.

Essa confiança construída ao longo dos anos fez com que Norma se tornasse uma figura querida e respeitada. Mais do que informar ou entreter, ela fazia parte da rotina das famílias. “Era uma época muito boa, porque a gente fazia parte do dia a dia das pessoas”, diz. Sua voz, suave e firme ao mesmo tempo, se transformou em companhia para muitas mulheres que, enquanto cuidavam da casa ou trabalhavam, encontravam no rádio um momento de conexão com o mundo.

Ao olhar para trás, Norma guarda com carinho cada momento dessa trajetória. E deixa também uma mensagem especial para as mulheres de Camapuã e para as novas gerações. “Continuem sendo felizes, tenham muita fé em Deus e façam tudo com amor. Porque com amor tudo fica bem mais fácil”, aconselha. A história de Norma Pereira mostra que uma voz pode atravessar o tempo, tocar vidas e se tornar parte da memória de uma cidade inteira — um verdadeiro símbolo das mulheres que ajudaram a construir a história de Camapuã.