Iniciativa na comunidade Furnas da Boa Sorte, em Corguinho, resgata memórias, saberes tradicionais e mudanças ambientais, além de fortalecer os vínculos entre gerações

Histórias sobre partos realizados na comunidade, remédios caseiros, dificuldades de acesso à saúde e a rotina de trabalho dos antepassados estão sendo resgatadas por mulheres da comunidade quilombola Furnas da Boa Sorte, em Corguinho, a cerca de 99 quilômetros de Campo Grande. As lembranças deram origem ao jogo de tabuleiro Trilha Griô Furnas da Boa Sorte, criado para preservar a memória e valorizar a identidade local.
Entre as participantes está Vanda Catarina da Silva, de 42 anos, que encontrou nas rodas de conversa a oportunidade de conhecer melhor a trajetória de sua família e de outros moradores. Para ela, os encontros ajudaram a recuperar histórias que nem sempre eram transmitidas de uma geração para outra.
“Eu pude conhecer mais um pouco da minha história, da minha origem. E não só da minha, como das outras famílias também”, relatou Vanda. Ela pretende compartilhar o conhecimento adquirido com os filhos e netos, contribuindo para que as memórias permaneçam vivas na comunidade.
Durante as conversas, as mulheres relembraram as dificuldades enfrentadas pelos moradores no passado, principalmente para conseguir atendimento médico. Diante da distância e da falta de meios de transporte, muitas famílias recorriam a ervas e preparos caseiros para cuidar da saúde.
“O meio de locomoção para as pessoas saírem e procurarem um médico era muito difícil. Então, era mais usado remédio caseiro mesmo”, recordou Vanda.
As participantes também falaram sobre as condições de trabalho de antigamente, quando alguns moradores precisavam deixar suas famílias para trabalhar em fazendas e nem sempre conseguiam voltar para casa diariamente. As lembranças permitiram comparar essas dificuldades com as mudanças ocorridas ao longo dos anos, incluindo melhorias no transporte e no acesso aos serviços de saúde.
Jogo valoriza a identidade quilombola
A criação do tabuleiro foi conduzida pela Casa Moringa, com base na Pedagogia Griô, proposta educativa que valoriza a oralidade, os conhecimentos ancestrais e as experiências das comunidades. As oficinas incluíram rodas de conversa, atividades lúdicas e elaboração de mapas afetivos.
As mulheres participaram da construção do mapa, da escolha dos temas e da elaboração das perguntas. O jogo reúne referências do território, espaços de convivência e trabalho, árvores, espécies nativas, saberes tradicionais e ofícios da comunidade.
As cartas também abordam temas como racismo, relações de gênero, conflitos territoriais e invisibilização dos povos indígenas. A produção artesanal do tabuleiro, das peças e das cartas foi finalizada pela Casa Moringa, devido a limitações de tempo e logística para realizar todas as etapas na própria comunidade.
Segundo Luciana Meireles, sócia da Casa Moringa e responsável pela facilitação das oficinas, os primeiros encontros revelaram um distanciamento entre moradores mais velhos e jovens, além de dificuldades de algumas participantes para contar a história da comunidade.
A proposta, conforme a facilitadora, foi fortalecer a identidade local e ampliar a participação das mulheres na preservação da memória coletiva.
Rio seco mobiliza moradores
Além das histórias familiares, as oficinas abriram espaço para discutir as transformações ambientais no território. Uma das lembranças mais marcantes foi a de um rio que, no passado, era utilizado pelas crianças para brincar e pelos moradores para pescar e conviver.
Segundo Luciana, o curso d’água está seco atualmente, e sua representação no tabuleiro despertou o interesse das participantes em investigar o que aconteceu e quais alternativas poderiam contribuir para sua recuperação.
Conforme os relatos compartilhados durante as atividades, os moradores associam a situação ao desmatamento nas proximidades das nascentes e a intervenções em propriedades rurais da região. Essas relações, porém, foram apresentadas como percepções da comunidade e ainda precisam ser investigadas.
Oficinas também incentivam ações coletivas
A formação também ajudou a retomar iniciativas comunitárias. No primeiro ciclo de encontros, as mulheres construíram uma “árvore dos sonhos”, registrando objetivos pessoais e coletivos. Entre as prioridades estava a conclusão do galpão comunitário, cuja construção estava paralisada havia mais de cinco anos.
No segundo ciclo de oficinas, as educadoras encontraram moradores mobilizados em um mutirão para finalizar o telhado e o piso do espaço. A comunidade também havia retomado a feira da associação, que estava suspensa havia cerca de dois ou três anos.
As participantes recordaram ainda a atuação de uma parteira que reunia mulheres para realizar mutirões e compartilhar histórias, mostrando como essas práticas contribuíam para a convivência e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
Projeto envolve conservação ambiental e geração de renda
As oficinas fazem parte das ações do WWF-Brasil nas Cabeceiras do Pantanal, em parceria com a Rede de Sementes Flor do Cerrado. Na comunidade, um núcleo formado por 23 pessoas realiza a coleta de sementes nativas destinadas à restauração de áreas.
O apoio à coleta começou em 2018 e foi retomado em 2022, com a participação do Instituto Taquari Vivo e da Associação de Recuperação, Conservação e Preservação da Bacia do Guariroba. As iniciativas incluem capacitação técnica, gestão financeira e fortalecimento das lideranças femininas.
Segundo Juliana Assis, analista de conservação do WWF-Brasil, ampliar a participação das mulheres nas decisões reconhece sua contribuição para a conservação ambiental e cria oportunidades de geração de renda.
Com o jogo de tabuleiro, as mulheres de Furnas da Boa Sorte transformam lembranças individuais em uma memória compartilhada, aproximando gerações e valorizando a história, os conhecimentos tradicionais e os desafios enfrentados pela comunidade quilombola.
Fonte: Campo Grande News