A movimentação suspeita do delegado é detalhada na denúncia do Gaeco, que pede a condenação de 23 investigados, a perda dos cargos públicos e o pagamento de R$ 10 milhões em indenização

O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, apontado como peça central de um suposto esquema de desvio de drogas apreendidas pela polícia para revenda ao tráfico, movimentou pelo menos R$ 442.652 em operações consideradas suspeitas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). A investigação também questiona a origem dos recursos utilizados na construção de uma residência de alto padrão em um condomínio de luxo de Campo Grande, cujo custo é estimado em cerca de R$ 2 milhões. O delegado foi preso em 24 de setembro, durante a Operação Infiltrados, que também atingiu outros investigados.
Segundo o relatório, os valores considerados suspeitos incluem R$ 328.510 em 32 depósitos em dinheiro na conta pessoal do delegado, entre eles uma operação de R$ 276 mil realizada em 11 de março de 2024, da qual parte teria sido sacada no mesmo dia. Também foram identificados R$ 5.900 recebidos em três transferências via Pix de Neverson Vieira de Araújo, apontado como responsável por cooptar intermediários, além de R$ 108.242 depositados em 80 operações na conta da esposa. Os investigadores também analisaram declarações fiscais e a evolução patrimonial do delegado, que, em 2023, declarava possuir aproximadamente R$ 100 mil em patrimônio.
A construção do imóvel de alto padrão é outro ponto investigado. Conforme o Gaeco, os gastos teriam chegado a cerca de R$ 1,6 milhão, sendo mais de R$ 1,2 milhão registrados em uma planilha de materiais e acabamentos apreendida durante a investigação. O relatório considera os valores incompatíveis com a renda declarada e ressalta que a comparação não inclui todos os custos estruturais da obra nem as despesas habituais do casal. A apuração também identificou três transferências via Pix de R$ 25 mil cada, totalizando R$ 75 mil, feitas pelo delegado para uma empresa administrada pelo investigador da Polícia Civil Douglas Tobias, que, segundo os investigadores, teria sido utilizada para lavagem de dinheiro.
O relatório também aponta movimentações suspeitas atribuídas a Douglas Tobias. De acordo com o Gaeco, o investigador realizou 152 depósitos em dinheiro em sua conta pessoal, somando R$ 350.485. Uma loja de móveis vinculada a ele recebeu outros 151 depósitos considerados atípicos, no total de R$ 151.643,50, além dos R$ 75 mil transferidos pelo delegado. Somados, os créditos considerados suspeitos ultrapassam R$ 500 mil. Os investigadores também apontaram possível incompatibilidade patrimonial, citando uma residência avaliada em cerca de R$ 4 milhões e um Ford Mustang Shelby GT500 estimado em R$ 370 mil.
Em denúncia apresentada à Justiça em 9 de outubro, o Gaeco pediu a condenação dos 23 denunciados por crimes como organização criminosa, tráfico interestadual de drogas, associação para o tráfico, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e peculato relacionado ao desvio de entorpecentes e bens apreendidos. O órgão também solicita a perda dos cargos públicos dos servidores envolvidos, o confisco dos bens dos investigados e o pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos. Procurado, o advogado José Roberto Rodrigues da Rosa, que defende Hoffman, informou que está analisando o processo e que, até aquele momento, não havia solicitado a liberdade do cliente.
Fonte: G1 MS