Sem estrutura completa para partos de maior complexidade, município depende de atendimento de referência na Capital; história de Kethelyn evidencia os desafios enfrentados por gestantes do interior de Mato Grosso do Sul.

Aos 22 anos, Kethelyn Mariany Artiaga de Souza, moradora da zona rural da Pontinha do Cocho, distrito de Camapuã, viveu momentos de angústia durante a gestação. No dia 30 de setembro, em meio a um temporal, ela precisou ser transportada de ambulância até Campo Grande para receber atendimento médico. Grávida de aproximadamente sete meses, temia que os bebês nascessem antes de chegar ao hospital de referência.
A história foi publicada pelo Campo Grande News na quinta-feira (8), em uma reportagem sobre as dificuldades enfrentadas por gestantes de municípios sul-mato-grossenses que não dispõem de estrutura hospitalar completa para a assistência ao parto. No caso de Kethelyn, a viagem até a Capital ganhou um significado ainda mais delicado diante de uma perda vivida anteriormente.
Em nota ao Navega MS, o Hospital de Camapuã se pronunciou sobre o caso. Segundo o esclarecimento, em muitas situações, a solicitação de transferência é encaminhada à Central Estadual de Regulação (CORE), e o atendimento depende da avaliação do médico regulador. Sobre o caso de Kethelyn, a unidade informou que se tratava de uma gestação de alto risco, que exige atendimento em um hospital terciário, com recursos adequados para a mãe e o recém-nascido. A nota também esclarece que, em Campo Grande, as referências para gestantes de alto risco são o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) e a Santa Casa.
Em 2023, quando morava na Pontinha do Cocho, ela perdeu um bebê que nasceu sem vida após uma complicação durante a gestação. Segundo o relato publicado pelo Campo Grande News, a bolsa rompeu quando ela estava com sete meses de gravidez. Na ocasião, precisou ser transportada até Camapuã, em um deslocamento que, segundo ela, demorou e foi marcado pela perda de líquido amniótico. O bebê não sobreviveu.
Desta vez, a gestação teve um desfecho diferente. Após passar pelo atendimento inicial em Camapuã e ser encaminhada para Campo Grande, Kethelyn deu à luz no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, vinculado à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS). Foi lá que descobriu que esperava um casal de gêmeos. Conforme a reportagem original, os recém-nascidos foram encaminhados à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e apresentavam evolução favorável.
Estrutura hospitalar e segurança no parto
A situação de Kethelyn chama a atenção para os desafios da assistência materno-infantil em Camapuã, especialmente para as mulheres que vivem em áreas rurais e distritos mais distantes da sede do município. Para essas gestantes, o deslocamento até um serviço de referência pode representar uma etapa adicional em um período que já exige acompanhamento médico e cuidados específicos.

Em entrevista ao Campo Grande News, o prefeito de Camapuã, Manoel Nery (PP), explicou que o município possui centro cirúrgico e médico obstetra, mas não conta com anestesista nem com Unidade de Terapia Intensiva. Segundo ele, a realização de cesarianas em unidades com suporte intensivo oferece maior segurança para a mãe e o bebê, sobretudo quando há possibilidade de complicações.
A ausência desses recursos limita a capacidade de atendimento local em determinadas situações e faz com que gestantes sejam encaminhadas para hospitais com maior estrutura. A necessidade de transferência, porém, reforça a importância de uma rede de saúde organizada, com avaliação clínica, transporte adequado e agilidade no acesso ao serviço especializado.
Um desafio que vai além de Camapuã
O caso também se insere em um cenário estadual. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde, conforme os dados citados pelo Campo Grande News, 13 dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul não possuem hospital ou unidade hospitalar que realize ou preste assistência ao parto. A lista inclui Paraíso das Águas, além de outros municípios que dependem de referências regionais para esse tipo de atendimento.
A reportagem também apresenta histórias de mulheres de Terenos e Rio Verde de Mato Grosso que precisaram se deslocar para outras cidades para dar à luz. Embora as realidades e as estruturas de saúde sejam diferentes em cada município, os relatos evidenciam a importância do acesso ao pré-natal, da identificação precoce de riscos e da disponibilidade de serviços preparados para atender emergências obstétricas e neonatais.
Entre as medidas previstas para fortalecer a assistência materno-infantil está a Rede Alyne, estratégia do Ministério da Saúde que busca ampliar o cuidado durante a gestação, o parto e o puerpério, além de fortalecer o acompanhamento de recém-nascidos que necessitam de atenção especializada.
Para Kethelyn, a chegada dos gêmeos representa um novo capítulo após a perda vivida em 2023. Para Camapuã, sua história também lança luz sobre uma questão importante para as famílias do município: a necessidade de garantir que gestantes tenham acesso oportuno e seguro aos serviços de saúde, independentemente de onde vivem.