Com quatro títulos consecutivos no Campeonato Sul-Mato-Grossense de Bandas e Fanfarras, grupo camapuanense faz história e mostra que por trás das conquistas existe uma combinação de técnica, disciplina, preparação e formação de jovens

Que fenômeno é esse? Essa foi a pergunta que o Navega MS decidiu fazer. Depois de acompanhar a trajetória da Banda Municipal 30 de Setembro e de vê-la conquistar, ano após ano, resultados que impressionam até mesmo quem acompanha o universo das bandas e fanfarras, a reportagem especial desta semana foi atrás das respostas para tentar entender o que existe por trás de uma sequência tão rara de excelência. O ponto de partida é incontestável: em Dourados, no dia 29 de agosto, a banda de Camapuã conquistou o tetracampeonato estadual, repetindo os títulos de 2023, 2024 e 2025 e colocando novamente o município no topo do cenário sul-mato-grossense.

Mas quatro títulos consecutivos não acontecem por acaso. Por trás de uma apresentação que, para o público, pode parecer apenas alguns minutos de música, marcha, movimento e sincronia, existe um trabalho que começa muito antes da competição. O maestro Cássio Plácido, que há quase 16 anos está envolvido com o universo das bandas e fanfarras, explica que a fórmula foi construída com experiência, erros, acertos e muita observação:
“A grande receita é observar os pequenos detalhes. É não pensar apenas como maestro, mas também como ouvinte”, afirma.

Segundo ele, os jurados avaliam aspectos específicos da apresentação, da musicalidade à marcha, passando pelo rompimento, locomoção e precisão de cada movimento. A busca pela excelência, portanto, está justamente na capacidade de transformar cada detalhe em parte de um conjunto harmonioso.
E talvez esteja aí uma das respostas para entender o fenômeno. A preparação da 30 de Setembro não começa quando o campeonato se aproxima. Ela começa no início do ano. As músicas mais complexas são apresentadas com antecedência para que os integrantes tenham tempo de dominar o repertório, enquanto o trabalho envolve preparação musical, técnica de marcha, alinhamento, coreografia e condicionamento físico.

Em 2026, Cássio conta que viveu uma situação incomum: um ou dois meses antes da competição, a música já estava praticamente pronta e dominada pelo grupo. A tranquilidade chamou a atenção até do próprio maestro, acostumado à pressão que normalmente aumenta nos períodos que antecedem os campeonatos. O resultado foi uma das melhores notas obtidas pela banda ao longo dessa sequência de quatro títulos. E nada disso é feito sozinho: atualmente, o projeto conta com seis professores, dois estagiários e um profissional contratado pelo município, além de colaboradores voluntários, para atender um grupo que reúne quase 100 crianças.
Só que existe uma segunda dimensão nessa história que talvez seja ainda mais importante que os troféus. A Banda Municipal 30 de Setembro não é apenas uma banda de competição. É um projeto de formação. Seus integrantes são, em sua maioria, estudantes das redes pública municipal e estadual, além de participantes da rede privada, jovens e adultos. Crianças a partir dos nove anos podem ingressar no projeto e, ao aprender música, passam também a conviver com valores como disciplina, responsabilidade, compromisso e trabalho em equipe:
“A banda não é apenas uma formadora de músicos. Um dos seus principais objetivos é o trabalho social. É acolher, orientar, oferecer oportunidades e ajudar a manter crianças e jovens em um ambiente saudável”, explica Cássio.
A Prefeitura de Camapuã também mantém apoio ao projeto, incluindo 60 Bolsas de Incentivo à Cultura no valor de R$ 150 para os alunos participantes, além de profissionais e recursos para a manutenção das atividades.

O resultado dessa combinação já ultrapassa os quatro troféus. A Banda Municipal 30 de Setembro alcançou recentemente a terceira colocação geral no ranking de pontuação do campeonato estadual, ficando atrás de referências como Três Lagoas e Alcinópolis. E é justamente por isso que o tetracampeonato precisa ser observado para além da competição realizada em Dourados. 2023, 2024, 2025 e 2026: quatro anos, quatro títulos e uma trajetória que já entrou para a história das bandas e fanfarras de Mato Grosso do Sul. A reportagem especial do Navega MS tentou fazer esse raio-X e encontrou uma explicação que vai muito além de talento: existe método, experiência, preparação, investimento, trabalho coletivo e, principalmente, jovens que descobriram na música uma oportunidade de crescer. Cássio resume o próximo desafio em uma frase:
“O nosso sonho é, um dia, alcançar o primeiro lugar em nível estadual.” Depois de quatro títulos consecutivos, talvez a pergunta já não seja mais se a Banda 30 de Setembro pode chegar lá, mas até onde esse fenômeno de Camapuã ainda pode chegar.