Aos 36 anos, o peão camapuanense transformou uma trajetória marcada por desafios, lesões e fé em mais uma grande conquista da carreira ao vencer a 34ª Festa do Peão de Aporé – GO

A poeira da arena ainda nem havia baixado quando o nome de Geudivan Oliveira foi anunciado como grande campeão da final do rodeio em touros da 34ª Festa do Peão de Aporé (GO), realizada no dia 12 de julho de 2026. Aos 36 anos, o peão de Camapuã mostrou que a conquista vai muito além da fivela e dos R$ 10 mil em premiação. Ela representa o reencontro com um sonho construído ao longo de 16 anos de carreira, superando lesões graves, perdas pessoais e inúmeros obstáculos até voltar ao lugar mais alto do pódio.
Criado na fazenda, Geudivan descobriu cedo a paixão pelo rodeio. Ainda criança, montava em bezerros por diversão, sem imaginar que um dia se tornaria competidor profissional. A oportunidade surgiu por volta dos 16 anos, quando improvisou um brete na propriedade da família ao lado do amigo Marão. Pouco tempo depois, mudou-se para Campo Grande para servir ao Exército e passou a conhecer de perto o universo profissional das montarias, incentivado pelo irmão mais velho, que também competia:
“Até então eu praticamente só assistia rodeio uma vez por ano, na Expocam. Foi ali que comecei a treinar, fiz amizades e aprendi muito”, relembra.
Ao longo da carreira, a caminhada foi marcada por desafios que colocariam à prova qualquer atleta. Geudivan sofreu diversas lesões, principalmente no ombro, que até hoje ainda exige adaptações durante as montarias. Em outubro do ano passado, enfrentou um dos momentos mais difíceis da vida ao sofrer três fraturas no rosto. A recuperação foi longa e, por falta de tempo, ele praticamente não conseguiu retomar os treinamentos antes de voltar às competições. Mesmo assim, nunca deixou de acreditar:
“A força para voltar após uma lesão vem de dentro, é do coração. Quando a gente ama o que faz, aprende que cada tombo e cada lesão servem de aprendizado e dão força para continuar lutando”, afirma.
A conquista em Aporé foi construída montaria após montaria. Entre 30 competidores, Geudivan fez a segunda maior nota na primeira noite, conquistou a maior nota na segunda etapa e repetiu o desempenho na semifinal, chegando à decisão como o único competidor invicto. Com uma parada de vantagem sobre os adversários, garantiu matematicamente o primeiro lugar antes mesmo da última montaria, após as quedas dos concorrentes. Na final, caiu aos 7,37 segundos, mas o título já estava assegurado:
“Desde o início procurei montar touro por touro, confiando na vontade de Deus. Ele me abençoou durante toda a competição e pude sair com a fivela de campeão”, comemora. A vitória também teve um significado especial por ter sido conquistada no mesmo rodeio onde anos atrás competiu ao lado do amigo Gabriel Melhado, que terminou como vice-campeão naquela edição.
Além da fé, Geudivan destaca que a família sempre foi seu maior alicerce. Ele faz questão de reconhecer o apoio incondicional da mãe, que nunca deixou de acreditar em seus sonhos, mesmo convivendo com o medo de vê-lo entrar na arena. “Minha mãe sempre foi guerreira. Mesmo com o coração na mão, sempre esteve rezando, torcendo e apoiando meus sonhos. Ela é meu maior exemplo de perseverança.” Outro momento marcante foi quando precisou passar por uma cirurgia e recebeu uma grande demonstração de carinho da população de Camapuã. Amigos organizaram um almoço beneficente e uma campanha solidária que arrecadaram os recursos necessários para o procedimento:
“Foi a prova de que muita gente torce por mim. Sou muito grato a cada pessoa que me ajudou e tenho orgulho de levar o nome de Camapuã por onde passo.”
Durante os 16 anos de carreira, Geudivan conquistou diversos títulos, mas admite que o momento em que mais pensou em desistir foi após a morte do irmão, que também era peão e uma de suas maiores inspirações no esporte. Ainda assim, encontrou forças para continuar. “Se pensei em desistir, foi quando perdi meu irmão. Mas o amor pelo rodeio falou mais forte. Continuei por mim e por ele, porque sei que parar era uma coisa que ele nunca apoiaria.” O competidor também lembra que, no início da carreira, a falta de apoio financeiro e as premiações menores tornavam a caminhada ainda mais difícil. Hoje, acredita que o rodeio vive um novo momento, com maior valorização dos peões e mais oportunidades graças à divulgação proporcionada pela internet.
Com mais esse título na carreira, Geudivan segue motivado para disputar novos rodeios e recuperar completamente o ritmo após o período afastado das arenas. O maior sonho continua sendo conquistar um campeonato mundial, mas sem deixar de lado a fé que sempre guiou sua trajetória. “Quero continuar indo aos rodeios que aparecerem e fazer o meu melhor. O sonho de todo peão é o campeonato mundial, mas deixo tudo nas mãos de Deus. Se for para acontecer, será.” Aos jovens que sonham em seguir o mesmo caminho, ele deixa um conselho baseado na própria história:
“Acreditem em Deus e nos seus sonhos. Tenham dedicação, humildade e amor pelo que fazem. As dificuldades existem, mas a perseverança e a fé nos levam a lugares que nunca imaginamos alcançar.”