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 Ex-professor de Camapuã completa um ano desaparecido após ir lutar pela Rússia na guerra contra a Ucrânia

Família segue sem qualquer notícia sobre o paradeiro de Fábio Santos. Em entrevista exclusiva ao Navega MS, a sobrinha Jennyfer Larissa relembra o último contato e fala sobre um ano de espera e esperança

 

Por Flávio Dias – Navega MS
Fábio defendendo exército russo em guerra contra Ucrânia. Arquivo pessoal

 

Há exatamente um ano, a rotina da família de Fábio Santos, de 44 anos, mudou para sempre. Ex-professor de História e Teologia em Camapuã, ele desapareceu após embarcar para a Rússia com o objetivo de integrar as forças militares russas na guerra contra a Ucrânia. Desde o último contato, feito em 11 de julho do ano passado, nunca mais houve qualquer notícia sobre seu paradeiro. Neste sábado (11), o desaparecimento completa um ano, marcado por silêncio, incertezas e uma esperança que a família se recusa a perder.

Pouco antes de desaparecer, Fábio enviou à sobrinha, Jennyfer Larissa, aquele que se tornaria seu último contato com a família. Em um áudio, ele faz uma despedida emocionante e deixa justamente para ela a missão de contar sua história caso algo lhe acontecesse.

“Oi, Jennyfer, minha sobrinha. Estou mandando essa mensagem me despedindo de você, tá bom? Sabe que somos muito próximos, te amo muito. E é isso aí. Você vai ficar com a parte difícil: escrever sobre mim. Escreve nas redes, não sei… você tem o poder das palavras. Te amo muito.”

Na época do desaparecimento, o Navega MS revelou que Fábio havia informado sua última localização nas proximidades do rio Karpovka, em São Petersburgo. A família também foi orientada pela Cruz Vermelha e por órgãos consulares a registrar boletim de ocorrência e iniciar os procedimentos necessários para uma eventual identificação, caso surgisse alguma informação durante as buscas relacionadas ao conflito.

 

Última localização enviada por Fábio, no dia 11 de julho. Arquivo pessoal

Um ano depois, a única atualização concreta foi justamente a realização de um exame de DNA. O material genético foi coletado por orientação da Cruz Vermelha, em Brasília, para que, caso sejam encontrados restos mortais ou outras evidências compatíveis, seja possível confirmar oficialmente a identidade de Fábio. Apesar disso, até hoje nenhuma comunicação oficial foi feita à família.

Um ano após o desaparecimento, a única atualização concreta havia sido a realização de um exame de DNA por orientação da Cruz Vermelha,  para que, caso sejam encontrados restos mortais ou outras evidências compatíveis, seja possível confirmar oficialmente a identidade de Fábio. Apesar disso, nenhuma informação sobre seu paradeiro havia sido repassada à família.

Nesta quarta-feira (8), porém, a família recebeu uma nova atualização da Cruz Vermelha. Segundo as informações repassadas pela instituição, o nome de Fábio consta oficialmente na lista de brasileiros desaparecidos do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). De acordo com a equipe da Cruz Vermelha, isso significa que existe uma comunicação oficial às autoridades brasileiras sobre o desaparecimento, embora ainda não haja confirmação sobre o que ocorreu com ele nem informações sobre seu paradeiro.

Fábio vestido com a farda russa. Foto/Arquivo pessoal

Conforme a orientação recebida pela família, o cadastro do exame de DNA garante que, caso haja recuperação de corpos durante o conflito, o material genético já esteja disponível para uma eventual identificação. A Cruz Vermelha informou ainda que, em alguns casos, as autoridades responsáveis disponibilizam contatos de comandantes militares ou de setores sociais ligados ao Ministério da Defesa para que familiares possam buscar informações diretamente. No entanto, o próprio órgão reconhece que há dificuldades de comunicação, principalmente pela barreira do idioma e pela limitação das informações fornecidas às famílias.

Dados mais recentes do Ministério das Relações Exteriores mostram que o caso de Fábio faz parte de um cenário que ainda preocupa autoridades brasileiras. Desde o início da guerra, 23 brasileiros tiveram a morte confirmada em território ucraniano e outros 44 permanecem desaparecidos. A maioria dessas mortes (12) foi registrada no ano passado. O Itamaraty informou ainda que não possui estatísticas sobre quantos brasileiros foram ou continuam atuando no conflito. Em nota, o órgão explicou que “não dispõe de estatísticas de brasileiros engajados em conflitos internacionais, uma vez que o alistamento em forças estrangeiras, ação que constitui ato personalíssimo, independe de ciência ou autorização do governo brasileiro”.

Em entrevista exclusiva ao Navega MS, a sobrinha Jennyfer Larissa Sedei contou que preferiu permanecer em silêncio durante quase todo esse período. Segundo ela, enquanto diversas pessoas procuravam a família para entrevistas, a prioridade sempre foi buscar respostas junto aos órgãos responsáveis.

“Desde que ele sumiu, eu não falei muito sobre ele. Estávamos tentando buscar respostas na Cruz Vermelha, na embaixada e em outros lugares. A gente tentava encontrar quem levou ele para poder ter uma notícia. Agora já não depende mais de nós.”

Jennyfer lembra que Fábio sempre foi um homem determinado, inteligente e acostumado a superar momentos difíceis. Para ela, essas características ainda alimentam a esperança de que ele tenha conseguido sobreviver, mesmo diante dos horrores da guerra.

“Ele sempre foi tão safo, tão desenrolado com tudo. Um dia estava muito bem, depois caía, mas sempre se levantava de novo. A esperança que eu tenho é que, mesmo lá, em meio à guerra, ele tenha usado tudo isso para sobreviver. Eu só peço que ele esteja vivo.”

Uma das últimas fotos que Fávio enviou à sobrinha. Foto/Arquivo Pessoal

Em meio à emoção, Jennyfer também faz um alerta para outras famílias que convivem com pessoas enfrentando momentos difíceis. Para ela, muitas vezes ainda existe tempo para impedir decisões que podem mudar completamente uma vida.

“Independentemente do que aconteça na vida da pessoa, a gente precisa tentar salvar, tentar resgatar antes que ela vá. Hoje já não tem mais o que fazer. Antes talvez dependesse de nós. Agora não depende mais.”

Um ano depois daquela despedida, Jennyfer ainda não conseguiu atender ao pedido do tio da forma como ele imaginava. Ela diz que prefere continuar esperando por um reencontro a escrever uma despedida definitiva.

“Eu não quero escrever sobre ele como alguém que partiu. Eu quero que ele volte.”

Enquanto nenhuma resposta chega, familiares, amigos, ex-alunos e moradores de Camapuã seguem unidos pela esperança de que Fábio Santos esteja vivo. Um ano depois do desaparecimento, o silêncio continua sendo a única resposta oficial, mas a expectativa da família permanece a mesma desde o primeiro dia: receber uma notícia que coloque fim à angústia e traga Fábio de volta para casa. Uma espera que atravessa fronteiras, desafia o tempo e mantém viva a esperança de que a próxima notícia seja, enfim, a do reencontro.

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