Entre o aroma de frutas frescas e o doce que saía das panelas, Carla Rodrigues e Thairine Borges Rodrigues jamais imaginaram que as receitas da família ultrapassariam os limites da propriedade rural em Camapuã (MS). O que nasceu de forma despretensiosa, movido pelo afeto entre mãe e filha e pela tradição familiar, hoje ganha novos mercados e projeta a marca das empreendedoras para além do território brasileiro.
A trajetória das duas se consolida a partir da profissionalização do processo produtivo, com a formalização da produção e a adequação às normas sanitárias, etapas decisivas para a ampliação do negócio e o acesso a novos mercados.
À medida que empreendimentos como esse avançam, surgem também novos desafios e caminhos possíveis para quem busca expandir a produção e alcançar novos mercados. Entre essas alternativas, o acesso ao crédito aparece como uma das ferramentas que pode impulsionar pequenos produtores rurais na estruturação de seus negócios, na melhoria da capacidade produtiva e na abertura de novas oportunidades.
Nessa reportagem você vai ler sobre:
- Empreendedorismo feminino no campo: a história de mãe e filha que transformam tradição familiar em um negócio de alcance internacional.
- Cooperativismo de crédito: o papel de instituições cooperativas no fortalecimento de pequenos empreendimentos e no desenvolvimento regional.
- Agricultura familiar e agroindústria: a evolução da produção artesanal para um negócio estruturado e formalizado.
- Profissionalização da gestão rural: o impacto da organização, assistência técnica e qualificação no crescimento do empreendimento.
- Expansão de mercados: a abertura de novos caminhos comerciais no Brasil e no exterior.
- Inovação e comunicação digital: o uso do marketing e da gestão moderna na valorização da marca.
- Sucessão e transformação geracional: a união entre tradição e inovação que sustenta o crescimento do negócio familiar.
Esse movimento reflete uma tendência mais ampla do empreendedorismo rural brasileiro, em que pequenos produtores têm buscado profissionalização, inovação e regularização como forma de ampliar sua competitividade e conquistar novos mercados, sem perder a identidade artesanal de suas produções.
Com mais de 70 sabores registrados, a marca já marcou presença em feiras internacionais como a Alimentec, na Colômbia, e a Expoalimentaria, no Peru, levando produtos camapuanenses a compradores e distribuidores de diferentes países. A participação nesses eventos reforça o potencial da produção local e evidencia como o campo brasileiro pode alcançar mercados globais.

Formada em Direito, Carla Rodrigues poderia ter seguido a carreira jurídica. Mas foi o sabor das lembranças da infância que falou mais alto. Inspirada pelas receitas aprendidas com as avós, bisavós, avô e até pela sogra, ela decidiu resgatar os doces que marcaram gerações da sua família. Histórias que atravessam quase um século na Fazenda Estância Paineira, propriedade que, em 2028, completará 100 anos sob os cuidados da mesma família, preservando não apenas a tradição da terra, mas também o legado, o afeto e os sabores que passam de geração em geração:
“Meus doces são doces da memória”, costuma dizer. Cada receita carrega histórias, afetos e tradições transmitidas ao longo de décadas por famílias de produtores rurais.

Início da produção, crescimento e novas oportunidades
Em 2020, Carla legalizou a produção que até então era feita na cozinha de sua casa, dentro da propriedade rural, dando uma nova identidade ao negócio, que passou a se chamar Brazi Doces Brasileiros. O crescimento começou de forma simples: as filhas vendiam os doces entre colegas de trabalho e amigos. Aos poucos, a qualidade dos produtos conquistou consumidores e abriu novas oportunidades.
Um dos momentos decisivos aconteceu quando uma técnica do Senar-MS conheceu seus doces em uma conveniência de Camapuã e a convidou para participar de um programa de assistência técnica. A partir dali, os processos foram aprimorados, a gestão profissionalizada e os sonhos ganharam novas dimensões.
Em 2023, o reconhecimento pela qualidade dos produtos também resultou em um convite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Senar e o Sebrae, para representar a produção brasileira no exterior. A oportunidade, conquistada após um rigoroso processo de seleção e avaliação da qualidade dos produtos, permitiu que Carla ultrapassasse fronteiras e apresentasse seus doces em eventos internacionais, consolidando a excelência da agroindústria familiar de Camapuã.

Apesar de seus doces já ultrapassarem fronteiras e conquistarem consumidores em diferentes regiões, a principal matéria-prima da agroindústria continua sendo cultivada dentro da própria Fazenda Estância Paineira. O limão-galego, carro-chefe entre os mais de 70 sabores produzidos, nasce na propriedade e garante a autenticidade das receitas. Cada pé produz, em média, 15 caixas de limão por ano, abastecendo grande parte da produção. Durante o inverno, quando a colheita diminui naturalmente em razão das baixas temperaturas, parte da safra é cuidadosamente congelada e armazenada, assegurando matéria-prima de qualidade e permitindo que os doces sejam produzidos durante todo o ano.
Veja abaixo o vídeo da matéria-prima e o resultado final dos doces produzidos na Fazenda Estância Paineira:
A trajetória dessa agroindústria é marcada por evolução e rigor técnico. Desde 2020, o processo de legalização da produção, aliado a tratamentos rigorosos, certificações e obtenção de selos de qualidade, consolidou a produção caseira em um padrão industrial seguro e reconhecido. Esse avanço abriu portas para a expansão da marca e a conquista de novos mercados, inclusive internacionais.

A experiência de Carla reflete uma transformação que vem ocorrendo em todo o Mato Grosso do Sul. Atualmente, as mulheres administram 2.753 propriedades rurais acompanhadas pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar-MS, representando 27,59% das mais de 9,3 mil propriedades atendidas pela instituição no Estado. O dado demonstra o avanço da liderança feminina no campo, especialmente em segmentos ligados à agricultura familiar, agroindústria e produção de alimentos.
Em Camapuã, essa transformação pode ser observada diretamente nas agroindústrias acompanhadas pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar-MS. Atualmente, o programa atende quatro produtoras rurais no segmento de agroindústria e acompanha ainda outras quatro mulheres que participam ativamente da produção e da gestão dos empreendimentos familiares. O cenário revela o avanço do protagonismo feminino no campo, especialmente em atividades voltadas à agregação de valor da produção rural.

As agroindústrias atendidas desenvolvem atividades diversificadas, como a produção de doces artesanais, massas, mel, produtos cárneos, alimentos fatiados, mandioca descascada congelada e farinha de mandioca. Das oito mulheres envolvidas diretamente nos negócios acompanhados pelo Senar-MS no município, seis já concluíram o processo de formalização de seus empreendimentos, enquanto as demais seguem em fase de regularização. O resultado é o fortalecimento da agricultura familiar, a geração de renda dentro das propriedades rurais e a abertura de novas oportunidades de mercado para os produtores locais.
Esse crescimento tem sido impulsionado por investimentos em qualificação e assistência técnica. Somente em 2025, o Senar-MS realizou mais de 300 mil atendimentos em Mato Grosso do Sul, por meio de ações voltadas à educação profissional, assistência técnica, gestão, saúde e desenvolvimento rural, fortalecendo milhares de empreendimentos familiares em todas as regiões do Estado.

Foi justamente nesse ambiente de capacitação, assistência técnica e fortalecimento do empreendedorismo rural, com apoio de instituições como o Senar/MS e parceiros do setor, que novos horizontes começaram a se abrir para Carla. O resultado desse processo ultrapassou as fronteiras do Brasil e levou a agroindústria sul-mato-grossense a um dos maiores eventos do setor alimentício da América Latina.
Em 2023, veio um convite inesperado: participar da Expoalimentaria, no Peru. Foi uma corrida contra o tempo para adequar documentos, rótulos e exigências internacionais. O esforço valeu a pena. A marca, que já reúne mais de 70 sabores registrados, conquistou os visitantes com doces brasileiros únicos, que carregam a identidade da agricultura familiar e os sabores do campo.
A visibilidade cresceu ainda mais quando a história da família chamou a atenção do programa Globo Rural, da TV Globo. As gravações aconteceram na propriedade, no início de 2025, e a reportagem levou a marca para todo o país, fortalecendo ainda mais o reconhecimento do trabalho desenvolvido por Carla e sua família.
Agroindústria na fazenda e a produção de três mil vidros por mês
Paralelamente, outro sonho ganhava forma. Em 2024, foi concluída a construção da agroindústria dentro da fazenda, uma fábrica planejada e construída dentro de todas as normas para produção de doces. Hoje, a estrutura permite uma produção de aproximadamente 3 mil vidros por mês.
O diferencial está na origem. Cerca de 99% das frutas utilizadas nos doces são produzidas na própria propriedade rural, garantindo qualidade, rastreabilidade e autenticidade aos produtos.

Enquanto Carla cuida da produção e preserva as receitas que atravessaram gerações, Thairine lidera a comunicação, o posicionamento da marca e as negociações comerciais. Essa união entre tradição e inovação tem levado os doces cada vez mais longe. Um dos marcos dessa trajetória foi a participação de Thairine na Alimentec, realizada em Bogotá, na Colômbia, uma das mais importantes feiras internacionais do setor de alimentos e bebidas da América Latina. No evento, ela apresentou a marca da família a compradores, distribuidores e empresários de diversos países, ampliando oportunidades de negócios e demonstrando como feiras desse porte são fundamentais para dar visibilidade aos produtores, fortalecer marcas e abrir portas para novos mercados nacionais e internacionais.
Assista ao vídeo da participação de Thairine na Alimentec, na Colômbia:
O resultado é uma trajetória inspiradora de empreendedorismo feminino, valorização da agricultura familiar e sucessão entre gerações. Uma história que vai muito além dos doces: fala sobre coragem, trabalho, raízes e a capacidade de transformar tradições familiares em um negócio reconhecido pela qualidade.
A participação da empresa camapuanense nessa renomada feira foi viabilizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), por meio do projeto Agro.BR, desenvolvido em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). A iniciativa prepara pequenos e médios produtores brasileiros para atuar no mercado internacional, oferecendo capacitações, consultorias especializadas, promoção comercial e oportunidades de negócios com compradores de diversos países.
A oportunidade também evidencia a importância do Sistema CNA para o fortalecimento do agronegócio nacional. A entidade reúne cerca de 2 mil Sindicatos Rurais, presentes nos municípios brasileiros, além de 27 Federações Estaduais, que levam as demandas dos produtores até a esfera nacional. A partir dessa estrutura, programas como o Agro.BR aproximam empreendedores rurais do comércio exterior, permitindo que histórias como a da família Borges Rodrigues levem não apenas produtos brasileiros ao mundo, mas também um legado construído ao longo de gerações.

A preparação da empresa para esse novo momento também contou com o apoio de iniciativas como o programa Donas do Negócio, do Sicredi, e de instituições parceiras que acreditam no potencial das mulheres empreendedoras. Carla e Thairine mostram que tradição e inovação podem caminhar juntas, fortalecendo a gestão do negócio, ampliando oportunidades e preparando a agroindústria familiar para conquistar novos mercados.
Cooperativismo e apoio ao empreendedorismo feminino
Histórias como a de Carla e Thairine representam o tipo de transformação que o cooperativismo busca incentivar nas comunidades onde atua. Segundo o diretor-presidente do Banco Cooperativo Sicredi, César Bocchi, o modelo cooperativista tem como diferencial apoiar empreendedores locais, fortalecendo negócios capazes de gerar renda, desenvolvimento e oportunidades nas próprias regiões.

Com mais de 123 anos de história, o Sicredi nasceu ligado ao agronegócio e atualmente é o segundo maior financiador do setor no Brasil. Para Bocchi, a combinação entre presença local e estrutura nacional permite compreender as necessidades de cada comunidade e oferecer soluções adequadas para o crescimento sustentável dos empreendimentos.
“O Brasil possui um dos agronegócios mais inovadores, tecnológicos e produtivos do mundo. Nosso papel é entregar ferramentas, recursos e soluções para que as cooperativas e os empreendedores possam desenvolver todo o seu potencial dentro da realidade de cada região”, afirma.
O executivo destaca que o cooperativismo tem uma característica que o diferencia das instituições financeiras tradicionais: colocar as pessoas no centro das decisões. “Somos uma sociedade de pessoas. O associado não pertence à cooperativa. É a cooperativa que pertence aos associados. Nosso compromisso é ajudar quem empreende, produz e investe a prosperar, especialmente nos momentos mais desafiadores”, ressalta.

Em Mato Grosso do Sul, estado onde teve início a trajetória da instituição na região Centro-Oeste, o Sicredi está presente nos 79 municípios e segue ampliando sua atuação junto a produtores rurais, empresas e pequenos empreendedores. Para Bocchi, iniciativas lideradas por mulheres, como a agroindústria criada por Carla e Thairine, demonstram como o empreendedorismo pode agregar valor à produção rural, gerar empregos e abrir novos mercados.
Certificação abriu caminho para expansão dos negócios
A trajetória da agroindústria também contou com acompanhamento técnico e apoio institucional durante todo o processo de regularização para a comercialização. Segundo o secretário municipal de Agronegócio, Meio Ambiente e Empreendedorismo de Camapuã, Giovani Rocha, a primeira visita técnica à propriedade de Carla ocorreu em março de 2023, quando ela recebeu as orientações iniciais para a implantação da estrutura e o início do processo de adequação sanitária, com o objetivo de obter o selo SIM-COINTA (Serviço de Inspeção Municipal Consorciado do Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio Taquari). A certificação foi concedida oficialmente em julho de 2025, autorizando a produtora a comercializar seus produtos em novos mercados e ampliar sua atuação para os municípios abrangidos pelo consórcio, em conformidade com as normas de inspeção e segurança alimentar exigidas pelos órgãos fiscalizadores.
“O trabalho foi desenvolvido desde o início. A orientação começou ainda na fase de planejamento para que a produtora construísse sua agroindústria já adequada às exigências legais. Isso evita retrabalho e prepara o empreendimento para crescer de forma segura e sustentável”, destacou.

Atualmente, o município acompanha 12 agroindústrias e empreendimentos ligados ao setor alimentício. Desses, seis já conquistaram certificação e outros seis seguem em processo de adequação. Para Giovani, a regularização representa uma das etapas mais importantes para o crescimento dos pequenos negócios rurais.
“Quando o produtor certifica sua agroindústria, ele passa a ter um produto regularizado, dentro das exigências legais, e ganha liberdade para comercializar em novos mercados. O grande benefício é justamente a abertura de oportunidades para vender mais e alcançar novos consumidores”, afirmou.

Segundo o secretário, o fortalecimento das agroindústrias gera reflexos diretos na economia local: “A agroindustrialização permite agregar valor à produção, eliminar intermediários, gerar empregos e aumentar a renda das famílias rurais. É uma estratégia importante para manter o produtor no campo e fortalecer a agricultura familiar”, ressaltou.
O que é o SIM-Cointa
O Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio Taquari (Cointa) integra municípios da região norte de Mato Grosso do Sul e realiza a inspeção sanitária de produtos de origem animal. O programa oferece orientação técnica desde a fase de planejamento das instalações até a certificação final, garantindo que as agroindústrias atendam às exigências legais e sanitárias.

Com a certificação, os empreendedores passam a comercializar seus produtos de forma regularizada, ampliando oportunidades de mercado e fortalecendo o desenvolvimento econômico das propriedades rurais. Histórias como a de Carla refletem um movimento cada vez mais presente no campo, onde mulheres têm transformado pequenos negócios em empreendimentos consolidados, impulsionando a economia local e conquistando novos mercados.
Donas do Negócio e o avanço feminino

Os números mostram que essa transformação não acontece de forma isolada. Criado em 2022, o programa Donas do Negócio consolidou-se como uma das principais redes de apoio ao empreendedorismo feminino da região Centro-Oeste. Atualmente, a plataforma reúne mais de 4,5 mil empreendedoras e já ultrapassou 39 mil acessos. Além disso, cerca de 700 mulheres participantes ampliaram o faturamento de seus negócios e avançaram de categoria empresarial, migrando, por exemplo, de Microempreendedora Individual (MEI) para Microempresa (ME) ou de ME para Empresa de Pequeno Porte (EPP).
A trajetória de Carla e Thairine representa exatamente o propósito dessas iniciativas: transformar conhecimento, tradição e trabalho em oportunidades de crescimento econômico. Mais do que produzir doces, mãe e filha construíram uma agroindústria familiar capaz de agregar valor à produção rural, gerar renda dentro da propriedade e abrir mercados além das fronteiras brasileiras.
E assim, um doce de limão galego, feito com receitas herdadas dos antepassados, continua conectando passado e futuro, campo e cidade, Brasil e mundo. Mais do que um produto, cada vidro carrega uma história de empreendedorismo feminino, sucessão familiar, inovação no campo e desenvolvimento regional — valores que fazem da trajetória de Carla e Thairine um exemplo de como o protagonismo das mulheres pode transformar realidades e inspirar novas gerações.
Diante dessa trajetória, fica uma pergunta essencial: quantas outras histórias como a de Carla e Thairine ainda podem nascer quando conhecimento, apoio e oportunidade se encontram no caminho das mulheres do campo e do empreendedorismo? Iniciativas como o programa Donas do Negócio, do Sicredi, mostram que o fortalecimento do empreendedorismo feminino não é apenas um discurso, mas uma prática que já vem transformando realidades em toda a região.
Para conhecer mais sobre essa rede de apoio e entender como ela pode impulsionar novos negócios, acesse: Donas do Negócio Sicredi
*Colaborou a jornalista Graziela Rezende/Jornal Midiamax
